quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A morte.

Ouço a campainha. Levanto-me do sofá onde estava deitado a pensar em como o poderia fazer. Levanto-me com ansiedade e corro para a porta. Era ela. Beijamo-nos e convido-a a entrar. Ela aceita ingenuamente o convite e entramos. Senta-se no sofá de veludo lilás como se estivesse em sua casa e olha à volta. Terá reparado na estante acabada de comprar, ainda sem os livros e as fotografias, que estavam espalhadas pelo chão perto da porta do quarto. Dirijo-me para a cozinha e preparo um café. Olho para a direita e deparo-me com as facas de cozinha. Sinto uma estranha atracção por elas, como se estivessem a chamar por mim e a pedir que lhes pegasse e desse uso. Ajo normalmente porque ela está a olhar para mim. Olha para mim de forma apaixonada. O seu olhar transpõe o seu sentimento por mim como se fosse um raio que me atinge numa noite de tempestade. O seu corpo, atraente, pede urgentemente para ser tocado. Transpira sensualidade. O seu cabelo é sedoso, preto. Basta o olhar para perceber a sua suavidade ao toque. Coloco o café dentro das chávenas e levo-o até à sala de onde ela tem acompanhado todos os meus movimentos. Olha em volta mais uma vez, com ar de apreciação. O seu olhar pára num quadro que lhe desperta particular curiosidade. Tinha-o acabado uns dias antes. Ela fica intrigada, mas permanece em silêncio. A viagem do seu olhar à volta da sala continua. Do outro lado, estava um espelho onde ela fixou o seu olhar. O seu reflexo no espelho era como o sol da primavera ao entrar, de manhã, pela janela do quarto. Bebe um gole de café e pergunta-me se preciso de ajuda a arrumar as coisas na nova estante. Respondo que não e ela nota que estou pensativo, mas não pergunta o que se passa. Reparo na preocupação na sua cara e abraço-a. É um abraço apertado, como se fosse a última vez que estaríamos juntos. Parecia um abraço de despedida. De seguida, beijo-a apaixonadamente como se fosse o nosso último beijo. Levanto-me sem dizer uma única palavra e dirijo-me para o quarto. Paro em frente ao espelho e olho-me. O meu reflexo transpõe o vazio e a tristeza da minha alma. Vou em direcção ao armário e estico-me para alcançar a caixa que lá estava em cima. Finalmente consigo apanhá-la e abro-a. Lá dentro estava a arma que tinha comprado há algumas semanas atrás e as respectivas munições. Carrego-a e dirijo-me para a sala novamente. Paro mais uma vez em frente ao espelho. Uma lágrima cai pelo meu rosto. Limpo-a como se nada fosse e respiro fundo para ganhar coragem. Entro na sala e dirijo-me até ela, que continua sentada calmamente, como nada se passasse e sem saber o que estava prestes a acontecer. Paro atrás do sofá onde ela estava sentada, sabia que não o conseguia fazer olhando-a nos olhos. Encosto a arma à sua cabeça. Respiro fundo mais uma vez e, de repente.. Um tiro! A chávena cai derramando o café pelo chão e o seu corpo deita-se sobre o sofá. Um silêncio ensurdecedor invade a casa e eu, apático, mantenho-me completamente imóvel incapaz de fazer qualquer movimento que seja. Fico parado, vazio, muito mais morto que vivo...

3 comentários:

viravolta disse...

já se estava mesmo a ver a coisa.

Sophie disse...

Concordo apesar de nunca ter lido H.P. Lovecraft.

Sophie disse...

deve ser bué bonito então ^^